volume 6
when I have fears that I may cease to be / before my pen has gleaned my teeming brain, / before high-piled books, in charactery, / hold like rich garners the full ripened grain; / when I behold, upon the night’s starred face, / huge cloudy symbols of a high romance, / and think that I may never live to trace / their shadows with the magic hand of chance; / and when I feel, fair creature of an hour, / that I shall never look upon thee more, / never have relish in the faery power / of unreflecting love—then on the shore / of the wide world I stand alone, and think / till love and fame to nothingness do sink.
-- john keats
editorial
volume 6 - belonging
A while ago a friend asked me what my life was like, being a citizen of two very distinct cultures, with two different nationalities. My answer was, that I see myself as an inbetweenpat, at the same time belonging to both cultures, but always being misplaced when in one of them. Loud in one, quiet in the other. Extroverted in one, introverted in the other. Sunny in one, rainy in the other. And yet, never quite immersed in neither, always pushing parts of both away in order to fit some sort of mould.
Belonging is a heavy word. Heavy with meaning, history, implications. Just like in the previous volume we focused on space, this volume focuses on actually belonging to that space, being a part of it, being welcome in it. Or, you know, the opposite of that. We belong to big groups, small groups, natural groups and artificial groups. We insert ourselves into new groups, existing groups. And in the process, we are also kept from being in these groups, are removed from other groups, are put into neat little boxes by those around us (and by ourselves).
The etymology of the word “belong”, harkens back to middle English, being a composite of the prefix Be-, in the sense that we know the word nowadays, and Long, meaning “to be suitable or fitting”. Fittingly, this definition was taken from Merriam-Webster, since, as it turns out, I do not belong to the academic milieux anymore, and my access to the Oxford English Dictionary online now exists behind a paywall. Oh, the irony. What does it mean, though, to be suitable, or to be fitting? Who decides what fits, who belongs? Does something or someone belonging to some group automatically exclude it from belonging to a different group? And what about the concept of a “belonging”, as in “an object that belongs to me”, “the exclusion of someone else’s right to whatever it is we are alluding to”, or “the time that belongs to me but that I sell in order to afford a measly existence in this rainy existence called capitalism” – pardon me, I seem to have been overtaken by the soul of an old, angry, very bearded man.
I would argue for an additional understanding or breakdown of the word, also into “be” and “long”, but focusing on a sense of time, of permanence. Something “is” for “long”, however long our understanding of long is. The air in my lungs belongs to me as long as I hold it there, until I breathe it out, or until I get so greedy that I pass out and the world reclaims the air for itself. An object I buy, in our current understanding of possession and society, belongs to me, to the exclusion of all other individuals I deem not worthy of co-owning that object. This seems to me, to be a more timely understanding of the concept. I say this, with a new-found knowledge in mind, that not even a nationality, something that in my world view was always correlated either to a birth-right or an earned right (spending time to earn it), but now know to be just another pay-to-win scheme.
One of the cultures I grew up in, is an intensely nationalistic society, exuberant in displaying its pride of being a part of that nation. We invite anyone to join us in appreciating, exploring and experiencing all the wonderful gifts that the country has to give, even though, in general and for the general population, the country (understood here as government / society) doesn't give much. But having that stamp of belonging to that nation is a point of pride. And yet, for about the price of a new electric car, you can buy yourself into the country. No need to live there, contribute year-after-year to the growth of the country, be a part of it. Spend money, belong. Kinda makes you stumble a bit. For those interested in this, check out Femke Herregraven’s project Liquid Citizenship. You might find out something you didn’t know before. What citizenships can you afford to belong to?
All of this being said, belonging is integrally bound to feelings. If I own a house, but don’t feel like it is my house, I do not belong in that home. It might be my house, but it is not my home. If I have one, two, three passports, but do not feel connected to any of those cultures, I do not belong to them. On paper, sure, but paper only goes so far in making one feel whole. Find out where one belongs is a life-long pursuit, and, even though we make fun of all the talk around carpe diem, yolo, etc, the only certain belonging we have, is in the here and now. You are fitting in whatever way, shape or form you are, and are welcome here.
So please, be for long.
-- o. maag
gombrowicz
e eu
Um documentário obscuro de 1998, produzido pelo extinto Canal 15 da França, capturou bem o que significa ser estrangeiro. Nele, um cidadão argentino que emigrou jovem para a França retorna a Buenos Aires depois de trinta anos. O taxista que o leva de Ezeiza à cidade não vota em peronista nem com uma arma apontada para a cabeça, o que não o impede de classificar Menem como o maior picareta que a pátria já pariu.
O senhor grava a viagem com uma câmera de mão: a via expressa cortando os subúrbios, os galpões abandonados do porto (antes da reforma), o prédio dos Correios (muito antes de se tornar o Centro Cultural Néstor Kirchner) e a nuca do taxista. Este, quando se dá conta — estão subindo a Corrientes em meio a outras dezenas de táxis pretos e amarelos —, diz: “Si me estás filmando, te mato.” A gravação termina.
Em outra cena, vai a um campo de várzea onde seus antigos amigos do bairro jogam a pelada de fim de semana. Alguns se lembram dele, outros não. O chamam de El Francés (na França o chamam de l’Argentin). Perguntam mais por educação que por interesse da vida que construiu na Europa: É casado? Não. Tem amigos? Dois ou três. Juntou algum dinheiro? Não. Então, pra que carajo saiu da Argentina?
Por que emigrou? É o que se pergunta repetidamente. A resposta: Porque era jovem. Se tivesse ficado, estaria jogando bola aos domingos e xingando o Menem. Se foi para Paris, onde não joga futebol e também não pensa muito no Menem. Também não pensa muito no Jacques Chirac. Talvez seja essa a diferença.
Só que o documentário não é sobre um velho que retorna ao seu país para confrontar o passado. Pelo menos não em primeira linha. A viagem tem como objetivo retraçar os passos do escritor polonês Witold Gombrowicz.
Ainda no Charles de Gaule, aguardando o embarque, folheia os dois tomos do famoso diário de Gombriwicz (1953-1965), repleto de anotações e papeletes marcando as páginas. Depois caminha ao gate com os livros na mão, como se fossem a única coisa de valor que encontrou em três décadas na França.
Doze dos vinte e quatro anos que passou na Argentina, estão documentados nesse diário. Doze anos da vida de um escritor que o mundo esqueceu. Escrevia em polonês, sendo que na Polônia não o publicavam. Na Argentina não o compreendiam. Escrevia pela manhã no seu apartamento na rua Bacacay, depois se barbeava e saía. Anos, décadas a fio andou à toa por Buenos Aires ou matou as horas em cafés, vendo a vida passar. A sua e a dos outros. E é com isso – estou certo – que o senhor se identificou. Onde viu projetada a sua própria existência.
Grande parte da obra é dedicada às análises literárias ou filosóficas ou à política. Elas são como garoa num deserto remoto, que cai e evapora sem que uma puta alma note. Vejo Gombrowicz num banco de praça anotando algo sobre Kierkegaard ou sobre o que Lefebvre disse a respeito de Kierkegaard para mais tarde em casa passar a limpo. Pensa na palavra certa, reformula uma frase ou arranca e amarfanha uma página que lhe custou uma manhã de trabalho. Os cadernos vão se empilhando na escrivaninha.
O documentarista procura pessoas que conheceram o escritor em pessoa. Quem são? Homens, aposentados, que quando jovens tinham o polonês como mentor e amigo. O seu círculo de amizades era composto por rapazes de vinte ou menos. Metade da sua idade na época. É claro que hoje se especula sobre a sua sexualidade. Eu não acredito que esse aspecto seja realmente relevante e que a relação se tenha dado por outros dois fatores:
1.
O imigrante se instala onde é acolhido. Gente da sua geração e formação tem a vida social consolidada. Há pouca brecha para alguém de fora.
2.
Amargava a perda da sua juventude. O seu desperdício.
Ainda na Polônia teve um romance publicado – Ferdydurke (1938) - que não passou desapercebido. Tanto, que foi convidado a integrar a delegação de intelectuais de seu país que zarpou numa espécie de turnê rumo ao continente americano. Tinham atracado em Buenos Aires quando a Alemanha invadiu a Polônia. Seus colegas retornaram de pronto. Ele ficou. O que quero dizer, é que provou cedo do sucesso, mas que foi só uma bicada. A providência lhe guardou uma vida no anonimato.
Em todas as entrevistas concedidas, sobressai o ponto-de-vista do escritor em relação à juventude: que é ela é o apogeu e a velhice o declínio. O leitor também encontra essa ideia em diversas passagens do diário, como por exemplo nessa, de 1953:
“Por vários anos convivi sete horas por dia num recinto com K. – meu colega de trabalho. (...) Ele morreu tão de repente e desapareceu tão de repente, que foi como se uma mão o tivesse arrancado de entre nós. Eu ainda o vi uma vez: no caixão. (...) Hora ou outra um dos colegas se dissipa dessa maneira, daí encolhemos o pescoço e dizemos hm... (o que mais podemos dizer?) (...) Nós funcionários já nos encontramos na maior parte em processo de morte. Gente acima dos quarenta, que gradativamente definha. (...) No enterro me ocorreu que ali não eram vivos se despedindo de um morto, mas moribundos de um falecido. (...) Não sofremos pela nossa morte lenta, mas sim pelo fato de o encanto da vida ter-se tornado inacessível para nós. Vi no cemitério um rapaz, que como uma criatura de outro planeta, vagava formoso e misterioso entre os jazigos, enquanto nós parecíamos indigentes. Pois não pode haver no ser humano contraste maior que entre a pessoa acima de trinta, que já caminha para o seu fim, e aquela abaixo dos trinta, que se desenvolve.”
Os pupilos de Gombrowicz não escaparam da velhice. Levam a existência de aposentado no campo, no subúrbio ou num apartamento apertado na capital. Um deles, de suéter remendado e diante de uma cuia de mate, recorda como não foi ao cais do porto, se despedir do escritor, quando enfim retornou à Europa. Eram bons amigos, viajaram juntos às serras de Córdoba. Diz: “Não é que ele não tenha levado nada de bom da Argentina. Até numa prisão, em 24 anos, acontecem coisas boas. Uma conversa com o colega de cela, ou se o sujeito está na solitária, a amizade com uma aranha. Mas no final das contas a Argentina o decepcionou. Lhe deu pouco.”
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Outro senhor, bibliotecário aposentado na cidade de Tandil, na província de Buenos Aires, adota um tom mais positivo ao considerar que Gombrowicz viveu no estrangeiro uma espécie de segunda juventude. O anonimato de sua condição de forasteiro lhe teria garantido uma liberdade rara, ao livrá-lo das amarras sociais. Homem peculiar, gostava de se fazer passar por um conde falido ou por outros personagens extravagantes. Escolheu o público jovem para projetar essa persona, encontrando nele interlocutores mais disponíveis à irreverência, à experimentação e à recusa das convenções.
Gombrowicz escreve em dezoito de maio de 63:
“Não correspondia à verdade que eu tivesse me apaixonado pela Argentina. De fato, eu apenas queria estar apaixonado.”












